terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sombra e água fresca



Só quero sombra e água fresca.
Deixem que eu me sente à sombra de uma castanheira do Pará,
de uma palmeira do Maranhão,
de um coqueiro do Recife,
ou do cajueiro potiguar.
Não me contento só com caatinga do sertão.
Quero mais,
quero sombra da flora nativa,
sombra boa e convidativa
da mata que abraça o litoral
da Bahia ao Maranhão.
São palmeiras, bambus, castanhais
ou, ao menos, um jambolão
pra sentar e descansar.
Pode ser um mogno, angelim
ou um imponente jatobá
da Floresta Amazônica,
para que possa encher meus pulmões de ar
sem medo de me contaminar.
Gosto também da sombra das árvores pantaneiras:
aroeiras, ipês, palmeiras, angicos e figueiras.
Que com sua altivez e imponência
têm muita sombra pra dar.
Talvez da Serra do Mar,
um belo jequitibá
Um ipê da Mantiqueira.
Ipê amarelo, quaresmeira ou bromélia da Cantareira.
Fico grato se for um pinheiro bravo ou imbuia do Paraná.
Uma elegante araucária catarinense.
Aroeira, timbaúva, de minha terra natal.
Do meu Rio Grande querido,
qualquer coisa pra mim,
guajuvira, laranjeira-do-mato, paineira, canela,
cedro, louro, cabriúva, angico ou tarumã.
Até uma moita de sarandi, amarilho ou cambuim.

Só quero sombra e água fresca.

Pode ser água do rio Negro, do Amazonas, do Solimões, do Xingu ou do Tapajós.
Do Grajau, do Parnaíba ou do Pindaré.
Do Araguaia ou do Tocantins.
Água boa do velho Chico, do rio Corrente ou do Grande.
Aceito água do Paraíba do Sul, do Tietê, do Pardo ou do
Paranapanema.
Ah! Água fresca do Guarani,
das corredeiras do Iguaçu,
do Paraná ou do Paraguai.
Da boa Lagoa dos Patos, do Uruguai, do Taquari,
da Mangueira, da Mirim e também do Ibicuí.

Só quero sombra e água fresca.

Por favor, não destruam as matas,
não poluam as águas,
nem a terra e o ar.
Efeito estufa, camada de ozônio,
aquecimento global.
Chuvas nunca vistas, secas de arrasar.

Não me venham com água do mar,
água salgada não dá!

Acordei assustado,
na boca um gosto salgado,
gritei:

só quero sombra e água fresca.

Aliviado pensei:
não tenho água, mas tenho sombra.
Sombra fresca.
E comecei a chorar,
sentindo o cheiro suave e cheio de culpa,
daquele jovem cidró,
que agora me dava sombra
no lugar do belo e frondoso pau-brasil,
que eu ajudei a derrubar.

Só quero sombra e água fresca.

Meu Deus, sou homem, errei,
e errar é humano.
Será que ainda posso lhe fazer um pedido:

Eu só quero sombra e água fresca.

Alex Dahlke

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